Diário de Viagem

Estação de chuva não é o fim do mundo

Viajar na baixa temporada me devolveu cidades que estavam impossíveis. O preço dessa beleza é se molhar.

Tem um romantismo equivocado em viagem que diz 'só vá em alta temporada, no melhor clima possível'. O resultado é que todo mundo vai no mesmo período, e o que era cidade vira fila. Aprendi a viajar na baixa temporada por economia primeiro, e depois descobri que isso virou meu jeito favorito de conhecer lugar. A estação de chuva, em particular, mudou minha relação com várias cidades.

Vietnã na estação de chuva (junho-setembro): chove uma hora por dia, geralmente à tarde, pesado mas curto. O resto do dia é seco e bonito. Os preços despencam: hotel que custa 80 dólares na alta sai por 30. Ruas que estariam apinhadas têm fluxo normal. Os melhores restaurantes não têm fila. Você precisa só de capa de chuva descartável (compre na hora, custa 10.000 đồng = R$2) e um celular à prova d'água. A diferença de experiência justifica a chuva.

Bali na estação de chuva (novembro-março): a chuva é mais imprevisível e dura mais, mas a ilha fica verde no sentido visual do termo. Arrozais que estão amarelados em julho parecem floresta na chuva. Templos sem turistas. Surfistas continuam surfando porque as ondas mudaram de localização, não desapareceram. O perigo real é dengue (mosquito tropical em alta), então use repelente sério. Mas Bali em janeiro foi uma das viagens mais bonitas que fiz.

Patagônia na chuva (novembro-março, paradoxalmente alta temporada lá): aqui a regra é diferente. Patagônia é seca por natureza, mas vento e chuva eventual fazem parte do pacote. Se você espera 'tempo bom' não vai. Aceite que vai estar molhado às vezes, e descubra que o céu nublado da Patagônia te dá luzes melhores que o sol pleno. Roupa técnica resolve quase tudo; capa Gore-Tex, calça que não absorve, botas impermeáveis.

O que mudou minha relação com estação de chuva foi entender que chuva em viagem é só desconforto temporário. Você se molha, troca de roupa, segue. As fotos que ficam não são do clima, são das interações. A senhora vietnamita que te chama embaixo do toldo dela esperando passar a chuva enquanto te oferece chá. O bar lisboeta que vira sala de visitas durante o aguaceiro. Esses momentos só existem porque alguém precisou parar. Tempo bom faz turismo eficiente; tempo ruim faz lembrança.