Diário de Viagem

Lisboa em 72 horas sem virar turista

Três dias completos numa cidade que recompensa quem aceita andar muito e comer devagar.

Lisboa virou cidade da moda nos últimos cinco anos e isso é simultaneamente uma boa notícia e um problema. Boa porque tem infraestrutura, voo barato, hotéis bons em qualquer faixa de preço. Problema porque o turismo cresceu mais rápido que a cidade aguenta, e Alfama em julho é um corredor humano. Faço Lisboa em 72 horas geralmente em fevereiro ou novembro, fora da temporada alta, e o ritmo é radicalmente diferente.

Dia 1 começa em Alfama bem cedo, antes das 9 da manhã. Subo até o Castelo de São Jorge antes da fila ficar grande, desço pela rua das Murtas, almoço pratos pequenos numa tasca como Zé da Mouraria. À tarde, Graça, observatório da Senhora do Monte. Volto pro hotel cedo. Janto em algum lugar pequeno em Alfama mesmo — Casanostra ou Lautasco, dois lugares que mantêm preço razoável apesar da multidão.

Dia 2 é Belém. Mas Belém antes das 10 da manhã. Pastéis de Belém quando a fila ainda tem três pessoas, Mosteiro dos Jerônimos antes de virar excursão. Padrão dos Descobrimentos do lado, vista do Tejo. Almoço no Time Out Market — sim, é turístico, mas a praça de alimentação tem dez chefs sérios e você prova Lisboa moderna em uma refeição. À tarde sobe pro Príncipe Real (jardim, lojas pequenas, café da Tartine).

Dia 3 é dia de bairro. Eu escolho um e fico ali. Geralmente Mouraria ou Estrela, dependendo do humor. Mouraria tem fado vadio em casas pequenas — Tasca do Chico se você quer o clássico, mas qualquer casa pequena de azulejos azuis ali funciona. Estrela é mais residencial, jardim grande, basilica branca. Pra terminar, miradouro de Santa Catarina ao pôr do sol, com um shot de ginja em bar pequeno antes do jantar.

O que evito: bonde 28 (lotado, dá enjoo), Time Out Market à noite (multidão demais), restaurantes em ruas turísticas com cardápio em quatro idiomas. O que faço sem pensar duas vezes: caminhar, sempre. Lisboa é cidade pra ser explorada com sola de sapato. Quem alterna táxi e Uber perde 80% do interior dela. Use o metrô pra ir longe (Belém, Oriente), e pra tudo o resto, anda. Em três dias dá pra fazer uns 70km de pé sem perceber, com paradas pra café em cada esquina.